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Cultura & Arte

Anitta faz de Equilibrium 2 um marco da música e da espiritualidade brasileira

Dando continuidade ao projeto iniciado em Equilibrium, o nono álbum de Anitta aprofunda a homenagem às religiões de matriz africana. Com faixas que vão do ijexá ao funk, passando por forró, reggae e rave indígena, a cantora do Candomblé amplia a fusão entre música popular e espiritualidade.

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Em 23 de julho de 2026, Anitta lançou “Equilibrium 2”. A cantora sempre foi uma artista de contrastes, mas nunca antes esses contrastes haviam se encontrado em um lugar tão sagrado quanto neste projeto. O nono álbum de estúdio da cantora dá continuidade ao que já havia começado em “Equilibrium”, um projeto que, em sua primeira versão, já era uma homenagem poderosa às religiões de matriz africana e à força da ancestralidade. Agora, Anitta vai além. Ela transforma seu estúdio caseiro em um terreiro. Os tambores que ecoam no disco não são apenas instrumentos, são a voz dos orixás, a pulsação da ancestralidade que atravessa o Atlântico e se encontra com o funk, o samba, o forró e a bossa nova.

O que torna este projeto uma obra extraordinária é a maneira como Anitta conseguiu, pela primeira vez na música popular brasileira, fundir religião e música em perfeita simbiose. Se “Equilibrium” já havia aberto esse caminho, “Equilibrium 2” aprofunda e consolida a fusão, elevando a proposta a um novo patamar. Não há aqui uma apropriação superficial ou uma referência exótica. Há um mergulho profundo, respeitoso e autêntico em sua própria fé. A cantora não canta sobre o Candomblé; ela canta a partir do Candomblé, como quem reza em voz alta.

A jornada pelo terreiro de Anitta

A porta do terreiro se abre com “Você Já Sabe”, uma faixa que é pura afirmação. “Você já sabe quem chegou / Só pelo toque do tambor”, alerta Anitta nos versos de abertura. A música, um mix de funk e maculelê produzido pelo trio Los Brasileros, estabelece o tom do disco: aqui, a música é ritual, e quem não entender isso, não entendeu nada.

O tambor que ecoa em “Você Já Sabe” não é um tambor qualquer. No Candomblé, o toque para Exu, o orixá mensageiro, senhor dos caminhos e das encruzilhadas, tem uma batida específica, acelerada, vibrante e inconfundível. É um chamado. A música de Anitta não reproduz exatamente o toque ritualístico, mas o evoca: a fusão do funk com o maculelê cria uma batida que, embora urbana, carrega a mesma energia de chamado e presença que o toque de Exu nos terreiros. Ao abrir o álbum com esse som, Anitta não está apenas fazendo uma escolha estética: está convocando a energia de Exu para abrir os caminhos do projeto, como se faz nos terreiros antes de qualquer trabalho espiritual.

Em “Sal Grosso”, o baile funk encontra o Candomblé. A faixa traz o sotaque jamaicano e uma mensagem clara: em Madureira, tem que respeitar. A parceria com Kbrum conecta a periferia carioca à Jamaica, mostrando que a diáspora africana não tem fronteiras.

A força nordestina chega com “Não Me Cutuca”, onde o xaxado encontra o house music. A faixa é um aviso, uma afirmação de força que homenageia as raízes paraibanas de Anitta. A intervenção de Alceu Valença é curta, mas poderosa, um encontro de gerações da música brasileira.

“Eu Não Sou Santa” traz o forró e a sanfona de Mestrinho, mas transcende o catolicismo popular para abraçar uma devoção mais ampla, conectando o sagrado feminino em todas as suas formas. A faixa é uma declaração de independência espiritual.

A eletrônica encontra o ponto de Exu em “Feitiço”. A faixa sampleia “Botaram Feitiço”, de J.B. de Carvalho, e traz a atmosfera densa e poderosa de um trabalho espiritual. Mart’nália adiciona a sofisticação e a tradição do samba a este canto de terreiro.

O reggae do Natiruts se encontra com a espiritualidade afro-brasileira em “Abre Caminho”, uma faixa que pede proteção e abertura de caminhos, com a levada suave e positiva de Alexandre Carlo.

“Sem Pressa” é um manifesto. Nascida da decisão de Anitta de recuar da carreira internacional para se reconectar consigo mesma, a faixa prega um ritmo mais calmo para a vida. O ijexá que embala a música é um convite à contemplação.

O coração espiritual do álbum é “Ogum Me Rodeia”. Anitta, Maria Bethânia e Letícia Fialho se unem em uma prece poderosa ao orixá guerreiro. A presença de Bethânia, uma das maiores vozes da música brasileira, é um selo de legitimidade e profundidade. Bethânia declama um poema na faixa, conectando a tradição oral à música contemporânea.

“Contemplação”, com o Grupo Ofá, é uma das faixas mais etéreas do álbum. Soa como um mantra, com harmonias cristalinas e os coros hipnóticos do grupo formado por integrantes da comunidade do Terreiro do Gantois, em Salvador. É uma oração em forma de música.

“Pra Você Gostar de Mim” é uma homenagem a Carmen Miranda. Anitta revisita a estética da artista que se tornou símbolo do Brasil no exterior, mas com um olhar crítico e contemporâneo, observando a própria vida e carreira a partir dessa lente.

A única faixa do álbum que não é cantada em português é “Azul”, uma versão em espanhol de Djavan. Uma escolha ousada que mostra o respeito de Anitta pelo gigante da MPB.

O álbum se fecha com um grito de resistência. “OKE”, uma “rave indígena”, une Anitta, o grupo Brô MC’s e a rapper Katú Mirim, ampliando a discussão sobre ancestralidade para além da herança africana e incorporando a presença dos povos originários. É um marco para a música indígena contemporânea.

Além da música

Longe de ser apenas um projeto musical, Equilibrium 2 marca um dos momentos mais ousados da música brasileira contemporânea ao colocar o Candomblé e a cosmologia dos orixás no centro de uma obra pop de alcance internacional. O que torna esse álbum singular não é apenas sua qualidade musical, mas sua capacidade de unir três elementos que raramente convivem em equilíbrio: entretenimento, espiritualidade e mercado pop.

Na indústria fonográfica internacional, referências religiosas costumam aparecer de forma pontual, metafórica ou como elemento estético. Anitta faz diferente. Sua espiritualidade não aparece como figurino. Ela organiza toda a narrativa do projeto. Essa escolha exige coragem. Religiões de matriz africana continuam sendo alvo de preconceito no Brasil. Dados do Disque 100 mostram que, no período de 2024 a 2026, as denúncias de intolerância religiosa cresceram 16%, atingindo de forma desproporcional praticantes do Candomblé e da Umbanda. Ao colocar essa identidade no centro de uma obra global, a cantora amplia a visibilidade dessas tradições e desafia estigmas históricos.

É comum encontrar artistas que mencionam orixás em uma canção. Também existem álbuns dedicados à cultura afro-brasileira. O que faz Equilibrium 2 se destacar é a forma como praticamente todo o projeto dialoga com valores ligados à ancestralidade, ao equilíbrio espiritual e à reconstrução da identidade. Independentemente da religião do ouvinte, o álbum propõe uma experiência baseada em autoconhecimento, pertencimento e reconciliação consigo mesmo.

Anitta declarou publicamente seguir o Candomblé e já falou em entrevistas sobre a importância dessa religião em seu processo de transformação pessoal. Ao assumir essa identidade, tornou-se uma das artistas brasileiras de maior projeção internacional a tratar de forma aberta uma religião de matriz africana, contribuindo para ampliar sua visibilidade em um cenário ainda marcado pela intolerância religiosa.

Ao reunir referências musicais, religiosidade de matriz africana e diferentes tradições sonoras brasileiras, Equilibrium 2 consolida-se como uma das obras mais ambiciosas da carreira de Anitta. Independentemente da recepção comercial, o álbum amplia o espaço das religiões de matriz africana no debate cultural brasileiro e reforça a música como instrumento de identidade, memória e pertencimento.

Lente BNB

Anitta não apenas fez um álbum. Ela ergueu um monumento. Em Equilibrium 2, a cantora encontrou o raro ponto de coesão onde a música popular e a fé se encontram sem perder a identidade de nenhuma. O projeto, que inclui um curta-metragem de 35 minutos, é uma declaração de que a espiritualidade afro-brasileira não é um nicho, mas uma força estruturante da cultura do país.

A presença de Maria Bethânia em “Ogum Me Rodeia” e do Grupo Ofá em “Contemplação” não é apenas uma escolha artística, é um selo de legitimidade. Bethânia, uma das maiores intérpretes da música brasileira, e o Grupo Ofá, ligado ao Terreiro do Gantois, conectam o projeto à tradição, à oralidade e à resistência negra.

Ao reunir funk, ijexá, forró, reggae, xaxado e rave indígena, Anitta fez mais do que um disco eclético. Ela mostrou que a música negra brasileira não é um gênero, mas um universo. E que, neste universo, o sagrado e o popular podem co-existir em perfeito equilíbrio.

A pergunta que a Lente BNB faz ao ouvir Equilibrium 2 é: o que acontece quando uma das maiores artistas do país decide colocar sua fé no centro de sua obra? A resposta é este álbum, uma obra que, como ela mesma canta, prova que o axé pode estar em qualquer lugar, até mesmo no topo das paradas.

Fontes consultadas

O Globo: Anitta lança Equilibrium 2 e faz a maior homenagem às religiões de matriz africana (23/07/2026)
G1: Equilibrium 2: o disco sagrado de Anitta (23/07/2026)
Folha de S.Paulo: Equilibrium 2: como Anitta mistura fé e música (24/07/2026)
Billboard Brasil: Anitta encontra seu equilíbrio no novo disco (25/07/2026)

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